Os textos verbais e os textos não verbais

A linguagem é o uso da língua como forma de expressão e comunicação entre as pessoas, e não trata-se apenas de um conjunto de palavras faladas ou escritas, mas também de gestos e imagens, pois não nos comunicamos somente através da fala e da escrita.

A linguagem pode ser verbalizada - daí vem a analogia do verbo. É impossível nos pronunciarmos ou termos algo fundamentado e coerente sem o uso dos verbos. A linguagem verbal é a que se utiliza de palavras quando falamos ou escrevemos. A linguagem pode também ser não verbal, que ao contrário da verbal, não se utiliza de vocábulos - das palavras para se comunicar. O objetivo, nesse caso, não é de expor verbalmente o que se quer dizer ou o que se está pensando, mas utilizar-se de outros meios comunicativos, como placas, figuras, objetos, cores, ou seja, dos signos visuais.

Um texto narrativo, um e-mail, uma reportagem em um revista escrita, os diálogos de filmes: linguagens verbais.

O texto verbal é “uma unidade linguística concreta, percebida pela audição (na fala) ou pela visão (na escrita), que tem a unidade de sentido e intencionalidade comunicativa”.
Cereja, Magalhães e Cleto

O Semáforo, os cartões vermelhos e amarelos em uma partida de futebol, uma dança, um aviso de “proibido fumar” ou de silêncio, as placas de trânsito, as identificações nas portas de banheiros: linguagens não verbais.

A linguagem pode ser ainda verbal e não verbal, como no caso das charges e anúncios publicitários.

Vejamos alguns exemplos abaixo:

Linguagem verbal:


Linguagem não verbal:



Linguagem verbal e não verbal (mista):


Referências:
Apostila Oficina
Imagens retiradas do Google

Ler bem...

Ler bem é ouvir o que as palavras nos dizem. O que dizem as palavras quando as despimos, quando perscrutamos seu passado, suas reentrâncias, seu parentesco? Não dizem tudo, é verdade. Sempre falta à palavra outra palavra que a complemente e que a explique. Nathalie Sarraute, no livro O uso das palavras, imagina as palavras produzindo inúmeras ondulações. Captar essas ondulações, ler as entrelinhas, e as entreletras, é instrutivo, divertido e trabalhoso. Captá-las com outras palavras é o exercício de quem quer ler para valer. Tal esforço se renova infinitamente.


Gabriel Perissé. Revista Língua Portuguesa.
http://www.olhar-43.net/menina-lendo-imagens-fofas-para-tumblr-we-heart-it-etc/

O português e o mercado das línguas


O Brasil ocupa hoje a 7a posição entre as maiores economias do mundo. Com seu território continental, é o 5o maior país e o 5o em população. Com nossos mais de 190 milhões de falantes, o português brasileiro é a 3a língua mais falada do Ocidente, atrás somente do espanhol e do inglês. No entanto, nossos governantes até hoje não despertaram para a relevância das línguas no atual mercado globalizado. O português brasileiro cresce de importância no mundo por pura inércia, arrastado pela projeção do país no cenário mundial. Embora tenhamos 85% dos falantes de português no mundo, não temos nenhuma política linguística sistematizada, planejada, para tornar nossa língua um bem de exportação capaz de fazer aumentar ainda mais o nosso PIB. Já Portugal, cinquenta vezes menos que o Brasil e com uma população inferior à da cidade de São Paulo, tem 17% de seu PIB constituído por produtos linguísticos. Na comparação, perdemos de longe para os portugueses, que são há muito tempo muito mais agressivos na promoção de sua língua no exterior. Na UNAM, a Universidade Autônoma Nacional do México, está o maior contingente de aprendizes de português no mundo e tudo levaria a crer que o português brasileiro seria o objeto de desejo dos mexicanos. No entanto, o Instituto Camões, órgão oficial da política linguística portuguesa, ocupa um andar inteiro no centro de línguas da UNAM, enquanto o português brasileiro não recebe nenhum apoio institucional oficial e são os professores brasileiros no exterior que são obrigados a se desdobrar para levar adiante a difusão da nossa língua.


O Brasil poderia muito bem ocupar, no tocante à língua portuguesa, o mesmo papel que ocupam os Estados Unidos no tocante ao inglês. Existe uma Commonwealth, comunidade internacional de países de língua inglesa, da qual os Estados Unidos não fazem parte. Apesar disso, o inglês que impera no mundo é o inglês americano, por razões mais do que óbvias, sem dar a mínima bola para a política linguística do Reino Unido, que também é forte. O Brasil, no entanto, assume uma postura colonizada, de subserviência às decisões linguísticas de Portugal. Por exemplo, os livros didáticos brasileiros continuam estampando até hoje uma norma-padrão abissalmente distante do verdadeiro português brasileiro urbano culto. A ridícula proibição de começar frase com pronome oblíquo só existe porque os portugueses não falam assim. Resultado: 192 milhões de pessoas são obrigadas a seguir uma regra que é natural, espontânea, intuitiva para meros 9 milhões e meio que vivem do outro lado do Atlântico. Ninguém precisa proibir os portugueses de começar frase com pronome oblíquo: a fonologia da língua deles não permite isso, ao contrário da nossa.


Países de língua portuguesa

O futuro do português no mundo depende do Brasil, mas para isso é necessário empreender pelo menos duas ações bem planejadas e executadas: abandonar a ideia jurássica de que só os portugueses falam bem a língua e reconhecer a legitimidade das opções genuinamente brasileiras de uso da língua, que é tão nossa quanto dos portugueses e até mesmo, se levarmos em conta a população, muito mais nossa do que deles!

Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UNB
http://e-ipol.org/o-portugues-e-o-mercado-de-linguas/
http://pasqualetes.com.br/

Se os tubarões fossem homens - Bertolt Brecht


Para fazermos uma boa redação, é fundamental que tenhamos o hábito de ler, pois somente quando conhecemos determinado assunto é que somos capazes de escrever e refletir sobre ele. E só conseguimos adquirir esses conhecimentos através da leitura. As dificuldades na hora da escrita podem ser superadas com orientações, mas sobretudo com nosso próprio esforço de procurar nos informarmos e escrevermos da forma mais clara e correta possível, utilizando-nos de um vocabulário variado.



Postarei aqui frequentemente textos ou fragmentos de textos para incentivar a leitura e, consequentemente a reflexão e o pensamento crítico.


Se os tubarões fossem homens (Bertolt Brecht)

Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construíram no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.

Bertolt Brecht (1898 - 1956) nasceu em Augsburgo, Alemanha. Foi um escritor, dramaturgo, poeta e teórico teatral. Escrevia poesias com conteúdo social. Foi perseguido pelos nazistas por ser militante do comunismo.

Vamos ouvir o texto na voz de Antonio Abujamra:



Vamos fazer um pequeno comentário (bem superficialmente) a respeito do texto:

O texto é uma alegoria sobre as relações de poder humanas, onde os mais poderosos (e fortes) exploram os mais fracos. Há uma crítica à civilização: porque os tubarões estão construindo gaiolas para os peixinhos? Para poder devorá-los depois. Os tubarões lhes dão comida e água fresca (empregos/salários) - a bondade dos tubarões pode ser relacionada a exploração do trabalho. As festas que o autor se refere, não passariam de “bálsamos” para os peixinhos: fazer com que fiquem alegres (evitando uma possível revolta) através de paliativos supérfluos e coisas sem valor efetivo. As escolas dos peixinhos os ensinam a nadarem diretamente para as bocas dos tubarões: podemos fazer uma relação disso com a educação de má qualidade, que não torna o cidadão consciente e reflexivo. A educação moral passada aos peixinhos visa evitar que tornem-se materialistas - uma (possível) alusão ao alienamento causado pela religião. As guerras, que o autor menciona que haveria entre os tubarões por causa dos peixinhos pode estar relacionada às guerras que ocorrem sob falsos pretextos de se levar a democracia e libertas os países das ditaduras, mas que na verdade tem motivações comerciais e visam somente explorar os recursos desses países.

Que sentido você entendeu do texto? Deixe nos comentários!

https://resistir.info/brecht/tubaroes_homens.html

A importância da leitura

A leitura é extremamente importante em nossa formação social: é através dela que nos tornamos cidadãos críticos - condição indispensável para o exercício da cidadania, na medida em que nos tornamos capazes de compreender as inúmeras vozes que se manifestam no debate social e também de nos pronunciarmos com nossa própria voz, tomando consciência de nossos direitos e lutando por eles. A leitura nos propicia, através de nossas próprias experiências de vida e cotidianas, entender o mundo a nossa volta, abrindo nossas mentes para o desconhecido e passando a construir um mundo melhor para nós mesmos. Possui também papel fundamental em nossa aprendizagem: é através dela que enriquecemos nosso vocabulário e obtemos conhecimentos.

Veja abaixo alguns benefícios da leitura:

  • Amplia o vocabulário e melhora a escrita: pesquisas comprovam que pessoas que leem mais possuem vocabulário mais rico, além de ter melhores habilidades verbais, como a fala e a escrita. O fato de uma pessoa ler mais faz com que ela tenha maior vocabulário e consequentemente saiba empregar melhor as palavras.
  • Melhora a capacidade de fazer análises: ler faz com que tenhamos mais facilidade em analisar e resolver problemas. Ler histórias, ficcionais ou não, traz benefícios em nosso cotidiano, pois pode nos ajudar a contornar obstáculos em nossa vida real.
  • Aprendizado e benefícios cerebrais: a melhor forma de aprender e entender sobre algo, sempre será lendo. Além disso, a leitura traz benefícios ao cérebro, pois desenvolve a concentração, foco seletivo e a imaginação. Melhora a memória e ajuda a manter o cérebro saudável.
  • Autoestima e esclarecimento: pessoas que leem tendem a se sentir mais inteligentes, o que pode melhorar a autoestima. Além disso, aqueles que leem mais possuem ideias mais críticas. A leitura pode nos transformar em pessoas esclarecidas!
  • Desenvolvimento pessoal: a leitura estimula a reflexão sobre nossos princípios, valores, pensamentos e atitudes, além de melhorar a nossa visão do mundo. Através das histórias adquirimos conhecimentos sobre o comportamento humano, e passamos até a entender o porquê de algumas pessoas terem determinadas atitudes.
  • Criatividade e empatia: ler histórias diferentes faz com que nossa criatividade seja muito mais potente em relação às pessoas que não costumam ler. A criatividade tem papel fundamental em nossas vidas: nos ajuda a ter novas ideias e a resolver problemas no dia a dia. Além disso, a leitura pode nos humanizar, abrindo sentimentos e desenvolvendo empatia.
  • Cultura: através da leitura temos a possibilidade de ter contato com várias culturas distintas. Podemos saber como determinado povo se comporta e os motivos por agirem de forma diferente da nossa. Compreendemos melhor os outros quando passamos a saber a história de vida que o cerca. Lidamos melhor com as diferenças e não generalizamos as circunstâncias.
  • Pontos de vista e perspectiva: através da leitura, podemos nos colocar na pele dos personagens e desenvolver a habilidade de ver diferentes perspectivas. As experiências adquiridas na leitura podem fazer com que nosso mundo se expanda.
  • Ajuda a atingir metas e objetivos: além de aprender mais coisas lendo, um bom livro pode nos trazer inspiração: ler histórias de sucesso pode nos motivar a correr atrás de nossos sonhos e objetivos.
  • Bom humor: pessoas que têm o hábito da leitura costumam ser menos estressadas em relação a quem não lê. Os livros são ótimos para aliviar o estresse e fugir da realidade do dia a dia. Ler pode fazer com que esqueçamos do mundo e dos problemas. Também faz com que nos desliguemos do mundo digital e redes sociais, pois para fazer uma boa leitura, é preciso concentração.



A importância da leitura na formação social do indivíduo. Disponível em: <http://www.fals.com.br/revela12/Artigo4_ed08.pdf>. Acesso em 26/11/2016.
Confira razões para começar a ler de uma vez por todas. Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/atualidade/noticia/2013/11/07/1061787/confira-razes-comecar-ler-uma-vez-todas.html>. Acesso em 26/11/2016.

Ler devia ser proibido

Inauguro o blog com esse texto sensacional da Guiomar de Grammont, que mostra a importância da leitura em nossas vidas, através de uma reflexão com viés filosófico e um pouco de ironia.
A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.

Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.

É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submisso. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.



PRADO, J.; CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp. 71-3